Angelita Herrmann é nutricionista, servidora pública há 10 anos e atual Coordenadora Nacional da Saúde dos Homens no Ministério da Saúde. Nesta entrevista ela fala sobre as perspectivas da coordenação, a importância do trabalho no eixo Paternidade e Cuidado e educação permanente para transformação de cultura com o intuito de valorizar o homem como cuidador.

1) Conte um pouco sobre sua carreira profissional e suas perspectivas enquanto atual Coordenadora Nacional da Saúde dos Homens no Ministério da Saúde.

Sou nutricionista graduada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul no ano de 1991. Servidora pública desde 2005, atuei em programas intersetoriais nos níveis municipal e estadual. Nos últimos cinco anos, atuei como gestora de um município de médio porte no Rio Grande do Sul, sendo ainda primeira secretária e vice-presidente do COSEMS/RS – Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul nos últimos dois anos.

Coordenar a Saúde do Homem no Ministério da Saúde representa um novo desafio. As prioridades são de inserir realmente a atenção integral à saúde do homem na rede de saúde, com estímulo às mudanças de processos de trabalho nas equipes de saúde, integrando as ações e fomentando a educação permanente, para que o olhar sobre o homem também esteja na pauta da atenção.

2) A Coordenação Nacional de Saúde dos Homens (CNSH) é responsável pela implementação da Política Nacional de Atenção Integral da Saúde do Homem (PNAISH). Quais são os principais eixos temáticos e seus objetivos?

A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem – PNAISH, instituída pela Portaria GM/MS nº 1.944, de 27 de agosto de 2009, dispõe-se a qualificar a saúde da população masculina na perspectiva de linhas de cuidado que resguardem a integralidade da atenção. Reconhece que os homens buscam o serviço de saúde por meio da atenção especializada, o que traz como consequência, o agravamento de sua condição em virtude do retardo na atenção.

Dessa forma, torna-se necessário fortalecer e qualificar a atenção primária garantindo, assim, a promoção da saúde e a prevenção do adoecimento. Muitos agravos poderiam ser evitados caso os homens realizassem, com regularidade, as medidas de prevenção primária.

Um dos principais objetivos desta Política é promover ações de saúde que contribuam significativamente para a compreensão da realidade masculina nos diversos contextos socioculturais e político-econômicos. Outro é o respeito aos diferentes níveis de desenvolvimento e organização dos sistemas de saúde. Isso possibilita o aumento da expectativa de vida e a redução dos índices de adoecimento e morte por causas evitáveis. Para isso, a PNAISH está alinhada com a Política Nacional de Atenção Básica com as estratégias de humanização, e em consonância com os princípios do SUS, fortalecendo ações e serviços em redes e cuidados da saúde.

A Coordenação Nacional de Saúde dos Homens – CNSH, do Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas do Ministério da Saúde, trabalha no sentido de fomentar a implementação e acompanhar a implantação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem; estimular e prestar cooperação aos Estados e Municípios visando a implantação e implementação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem valorizando e respeitando as diversidades loco-regionais; além de promover, no âmbito de sua competência, a articulação intersetorial e interinstitucional necessária à implementação da Política Nacional, entre outras.

A PNAISH possui cinco eixos prioritários que norteiam suas principais ações técnicas e políticas no âmbito da gestão:

1) Acesso e Acolhimento: Este eixo norteia-se para a formulação de estratégias que incentivem a realização dos exames preventivos, a adoção de estilos e hábitos de vida saudáveis e a promoção da saúde, por meio da realização de ações voltadas para a educação em saúde que sejam capazes de propiciar mudanças na ambiência física dos serviços e de comportamento nos trabalhadores, na comunidade e nos usuários, considerando as peculiaridades sociais, econômicas, regionais e culturais deste público.

2) Saúde Sexual e Reprodutiva: tema que diz respeito ao direito e a vontade do indivíduo de planejar a constituição ou não da sua família, aumentando-a, limitando-a ou evitando a sua prole. Dentre outros assuntos, este eixo aborda as questões que versam sobre a sexualidade masculina no campo psicológico, biológico e emocional apresentando grande transversalidade com a Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente e com questões relacionadas às DST/Aids e aos Direitos Humanos.

3) Paternidade e Cuidado: tema relacionado ao engajamento dos homens nas ações do planejamento reprodutivo e no acompanhamento do pré-natal, parto e pós-parto de suas parceiras e nos cuidados no desenvolvimento da criança, trazendo como possibilidade real a todos envolvidos uma melhor qualidade de vida e vínculos afetivos saudáveis. Este campo de atuação oferece inúmeros benefícios no que tange à educação permanente em saúde, principalmente, a valorização de modelos masculinos positivos que inspiram capacidade de ouvir, negociar e cooperar, pautados no respeito, tolerância, autocontrole e cuidado.

Um ponto fundamental para a consolidação deste eixo é expansão na rede SUS da estratégia Pré-Natal do Parceiro, formulada pela CNSH, que visa, por um lado, colaborar para o exercício da paternidade ativa e por outro, integrar os homens na lógica dos serviços de saúde ofertados, possibilitando que eles realizem seus exames preventivos de rotina, tais como HIV, Sífilis e Hepatites, Hipertensão e Diabetes, e atualizem sua carteira de vacinação, entre outros.

4) Prevenção de Violências e Acidentes: este eixo diz respeito, sobretudo às ações voltadas para a redução da morbimortalidade por acidentes de transporte, acidentes de trabalho, violência urbana, violência doméstica e familiar e suicídio. Com exceção da violência sexual e das violências que ocorrem no âmbito doméstico e familiar, os homens, especialmente os jovens negros de camadas empobrecidas são mais vulneráveis à violência, representando mais de 90% dos homicídios totais ocorridos no Brasil.

Neste contexto, um importante desafio assumido pela PNAISH é somar suas ações às de outras coordenações e setores organizados do Governo Federal, relacionados à vigilância em saúde e justiça e transportes, entre outros, que abordem a prevenção, promoção, tratamento e reabilitação de situações de violência e acidentes em todos os níveis de atenção, principalmente nos serviços ofertados pelas equipes da atenção básica em saúde.

5) Doenças prevalentes na população masculina: tema que se refere, dentre outros aspectos, a prevenção e promoção da saúde junto aos segmentos masculinos por meio de ações educativas, organização dos serviços e capacitação dos trabalhadores da saúde, além da formulação de políticas para a prevenção e controle das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e de outras enfermidades afetas a esta população.

Os homens apresentam mais fatores comportamentais de risco do que as mulheres, o que determina maior morbimortalidade por doenças crônicas. A partir dessa perspectiva, a PNAISH tem buscado elaborar e executar um amplo projeto que fortaleça e dissemine seus preceitos e diretrizes, evidenciando os fatores de risco e proteção e a influência das questões de gênero no adoecimento por doenças crônicas.

Vale ressaltar que a priorização destes eixos, não exclui os demais temas pertinentes à saúde dos homens, os quais a CNSH tem buscado contemplar, na medida do possível, a partir da transversalidade das ações com outras áreas, coordenações e secretarias do Ministério da Saúde e do Governo Federal, trazendo maior integralidade à gestão da PNAISH como um todo.

3) A PNAISH foi instituída em 2009. Você observa alguma mudança importante desde sua implementação até hoje?

Muitos municípios tem incluído a atenção e o olhar sobre o homem, em ações vinculadas aos Planos Municipais de Saúde. Ainda temos o desafio da integralidade e da universalização destas ações, respeitando as realidades locais.

4) Na sua opinião, quais são os maiores desafios da CNSH? Por quê?

Mudar a cultura de cuidado e de autocuidado é um dos maiores desafios em relação à saúde do homem. Garantir acesso e acolhimento conforme as suas necessidades, integrando–o ao sistema de saúde, com ações que garantam a integralidade do cuidado e respeitando suas questões ainda é um desafio.

5) Devido a alguns padrões de socialização, os homens culturalmente tem maior resistência em se envolver no cuidado, incluindo o cuidado da sua própria saúde. Há uma estratégia para aumentar o acesso dos homens aos serviços públicos de saúde?

A melhor estratégia é a educação permanente de nossas equipes e da sociedade como um todo, para que o homem perceba a necessidade e as vantagens de se cuidar. Para isto, o apoio da mídia é fundamental.

6) A paternidade e o cuidado representam um dos eixos temáticos do trabalho da Coordenação Nacional de Saúde dos Homens. Qual a importância de abordar esse tema no trabalho da CNSH?

O momento em que o homem se descobre pai é uma oportunidade de ouro para que ele repense suas atitudes e seus desejos. Este momento precisa ser aproveitado para chamar a atenção sobre a necessidade do autocuidado, instrumentalizando-o e à sua família para mudança de estilo de vida. A experiência do cuidado é extremamente benéfica para a promoção da saúde das pessoas envolvidas, a prevenção de agravos e doenças e para o fomento à cultura de paz, reduzindo a violência que a falta de vínculo proporciona.

7) O Promundo e outras organizações da sociedade civil desenvolvem ações na linha do envolvimento dos homens na paternidade e no cuidado. Como a CNSH vê a atuação da sociedade civil nesse campo?

A sociedade civil tem papel fundamental na implantação de uma nova cultura de cuidado e de envolvimento. Entendemos que todos temos responsabilidades sobre a construção da sociedade, então, a parceria e a atuação do Promundo e outras organizações são excelentes para que possamos ter uma nova forma de vivenciar a paternidade e o cuidado.

8) Sabemos que a baixa participação dos homens na promoção da saúde materna e infantil é resultado de uma cultura que estimula e valoriza muito pouco o papel do homem como cuidador. Como é possível promover uma mudança na cultura para modificar este quadro?

Ações como as do Promundo são imprescindíveis para a quebra de paradigmas. Estimular a mudança na cultura através de ações junto às crianças, às famílias e as equipes de saúde com certeza é um bom passo. A utilização das redes sociais e espaços da mídia para falar sobre o assunto faz com que todos realizem uma mudança no seu pensamento. Educação permanente de equipes de saúde, para que o olhar viciado sobre o homem seja revisto, melhora o acolhimento e estimula ações de inclusão deste homem nas atividades de cuidado.